Alta em tarifas neste ano e incertezas sobre 2018 devem aumentar preços

Analistas do mercado financeiro projetam que os chamados IGPs fecharão 2017 em deflação, mas convergência ao nível positivo deve ganhar força nos próximos meses com variáveis já em curso.

A bandeira vermelha de energia elétrica e os derivados de combustível devem provocar encarecimento dos preços para os consumidores ainda neste ano. Na medida que o cenário de eleição se desenhe, projeções da inflação também tendem a subir em 2018. Apesar de o relatório Focus, do Banco Central (BC) demonstrar estimativas de deflação para 2017 no Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) e para o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), de -0,95% e -0,80%, respectivamente, a expectativa de aumento nos preços a serem sentidos pelo consumidor já desponta entre especialistas.

Segundo o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, “os IGPs” sofrem grande influência do Índice de Preços por Atacado (IPA) e, por sua vez, “devem ter repasses de preços mais altos ao consumidor em menos de seis meses”. “Vimos recentes altas de preços no combustível e no gado, por exemplo, além da mudança para bandeira vermelha na energia elétrica. No geral, o impacto não é direto, mas num horizonte de tempo um pouco maior, isso será repassado significativamente para o consumidor”, explica. O aumento, por si só, já pode ser visto na comparação com as projeções de um mês atrás.

IGP-DI estava em -1,07% e IGP-M em -0,86%. Para o ano que vem, as projeções ficaram de 4,50% e 4,44%, respectivamente. Além disso, de acordo com o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV ) André Braz, “as incertezas sobre a política fiscal do País podem representar um obstáculo nesse céu de brigadeiro”. “Sem contar que o próximo ano será eleitoral e ainda há poucas análises a serem feitas sobre os riscos do País, o que pode influenciar os preços vistos até agora.

Por enquanto, ainda há a possibilidade de que algum desafio surja, e isso pode frustrar as previsões muito otimistas do mercado”, comenta o especialista. Na mesma linha, os especialistas entrevistados pelo DCI ponderam que o “otimismo exagerado” dos analistas do Banco Central diante das poucas informações sobre o cenário para as eleições e a passagem das reformas, também podem prejudicar as previsões para o ano que vem. “Não há muitas informações precisas sobre o futuro e, por isso, a tendência é que as projeções convirjam para um cenário que, com o passar do tempo, calibre-se.

Mas até lá, ainda há dúvidas do quanto o Congresso trabalhará em função do governo ou das referências necessárias para 2018”, avalia o membro do Conselho Federal de Economia (Cofecon) Newton Conde. Ele acrescenta que a proximidade do fim do ano e o vagaroso caminhar da reforma da Previdência podem aumentar as incertezas para o ano que vem, junto à gradativa retomada da economia. “Se a reforma previdenciária não passar até o começo do ano, é improvável que o candidato ao próximo governo toque no assunto.

Sem contar que ainda há poucas movimentações para a reativação da economia, uma vez que reaproveitamento de capacidade ociosa não é retomada”, completa o economista. Ainda segundo André Perfeito, da Gradual Investimentos, os indicadores de preços “não suportam um cenário ruim”. “O mercado está precificando eleições tranquilas, mas há um espaço gigantesco para ruídos.

Isso tudo nos traz uma expectativa de haja um aumento nos preços do ano que vem, já que a incerteza sobe conforme a percepção de que a nossa inflação não se sustentará caso um candidato ruim apareça”, diz o especialista. “Tudo acabará sendo repassado ao consumidor, mas grande parte dessas sinalizações só devem vir a partir de 2018”, acrescenta Perfeito.

Condições ao consumidor

Quanto aos impactos para a população, os especialistas ponderam a existência de fatores benéficos, que evitariam impactos muito negativos Ainda de acordo com o relatório do BC, por exemplo, o Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a previsão para 2017 está em 2,48%. Há um mês era 2,99%. Nos preços administrados, por sua vez, a tendência é contrária à dos IGPs: de alta neste ano e queda para 2018. A estimativa é de 6,50% em 2017 e de 4,70% para o ano que vem.

Para Braz, do Ibre, grande parte dos movimentos de alta também dependerão da variação climática e da continuidade da política monetária. A bandeira vermelha, por exemplo, dependeria de condições climáticas, as quais têm previsões favoráveis. Isso já regularizaria os reservatórios e diminuirá os custos de energia. Da mesma forma, a chuva também faria bem ao gado por meio de grãos e capim, limitando a pressão desses preços. “Mesmo que os grãos fiquem mais caros por questões de câmbio ou de quebra de safra no exterior, o efeito seria isolado.

Assim, se as reformas passarem, o clima fica bastante favorável à inflação”, discorre Braz e ressalta que, mesmo as projeções de preços mais altos são positivas ao País. “Se a atividade retomar, os preços não terão mais espaço para recuar e precisaremos conviver com um pouco de inflação se quisermos crescer. Ainda que os melhores cenários não se concretizem totalmente, a expectativa do mercado ainda é positiva”, conclui.

AUTOR: ISABELA BOLZANI FONTE: DCI (SP)

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